segunda-feira, 4 de maio de 2009

Vínculo e veículo


Um amigo, que sabe que eu gosto das coisas das ilhas, emprestou-me a História dos Açores, publicada pelo Instituto Açoriano de Cultura.
São dois grossos volumes que, tudo me indica, vale a pena ler. Comecei a ler e logo tive um susto.
No 1.º capítulo da Parte I (O descobrimento dos Açores), o autor, Rui Carita, escreve a certa altura: a «descrição deste reconhecimento vinculada por Gaspar Frutuoso e por António Cordeiro, coincide em linhas gerais com a vinculada pelo misterioso cronista Francisco Alcoforado» (vol. I, p. 54). O meu ouvido ficou ferido porque o som não correspondia, de forma alguma, à ideia que me parecia que se quisesse transmitir (ou veicular).
Vinculada ou veiculada?
Pensei que se tratasse de um erro de impressão (qual?) ou de falta de cuidado na revisão do texto. É que vincular, embora parecido, nada tem que ver com veicular.
Fui procurar nos meus dicionários de Língua Portuguesa e encontrei, para vincular, os seguintes sentidos: ligar, atar prender, impor, segurar (GDLP, t. VI, p. 589 de João Pedro Machado); encontrei também coisa igual no Houaiss (t. VI, p. 3708).
Em sentido diferente, e nos mesmos dicionários, encontrei o significado de veicular: meio de transporte, transmitir ou fazer a difusão de, propagar, transmitir (p. 546 e 3674, respectivamente).
Parece-me, pois, que houve aqui algum engano ou na redacção ou na impressão.
No entanto, a mesma expressão, e no mesmo contexto, é repetida na p. 56: a «história é contada pelo padre Gaspar Frutuoso e vinculada depois pelo padre António Cordeiro».
Ou seja, e segundo me parece, trocou-se um verbo por outro quando apenas se passa que eles foneticamente têm alguma semelhança mas não de conteúdo. O historiador, qualquer historiador, pode veicular, transmitir uma opinião sobre determinado evento mas isso não nos vincula a coisa nenhuma, essa opinião não é imperativa.
Repito que não sei o que se passou neste caso em concreto; mas sei que a um professor catedrático isto é quase impossível de acontecer; da mesma maneira que sei que os dicionários também não se enganam nas questões das palavras.

P.S. Gostei de ver os isqueiros dos Beatles.
Obrigado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O isqueiro


Nunca quis isqueiros bons porque eram caros e porque acabaria por os perder na primeira oportunidade. Quando pretendiam oferecer-me um isqueiro bom, respondia logo que não, que seria uma tolice, que qualquer um serve desde que dê chama, etc..
Mas ao fim de muitos anos a comprar isqueiros que não prestam, decidi comprar um bom.
Há pouco tempo comprei um Clipper que se estragou ao fim de 10 dias; comprei, logo a seguir, um Bic pequeno pensando que estava cheio; não estava e durou 5 dias.
Tomei, então, a resolução de comprar, finalmente, um isqueiro que preste.
Comprei o Zippo, claro (dentro dos bons, ainda é dos mais baratos), o modelo que está na fotografia. Foi feito em Março de 2008, conforme se pode ler na sua base (C ZIPPO 08).
De há uns anos para cá, a datação dos Zippos alterou-se e o mês vem indicado com uma letra e o ano com os dois últimos números. Os números romanos, que durante uns anos dataram os isqueiros, nada têm que ver com a raridade ou a qualidade do objecto em si; é só uma data.
Comprei o que estava na imagem porque a loja não tinha nenhum daqueles que eu queria.
Fica para a próxima.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Discriminação ou não

Vi este papel espetado na porta de um bar no subúrbio onde vivo.
Facilmente percebo que, por ser homem, pago mais. Isto não me importa muito desde que beba tudo a que tenha direito. Mas irrita-me o tratamento de dinheiro diferente.
Se isto não é machismo, então é o quê?
Se um casal vai ao bar, o natural é ambos partilhem a despesa, ou seja, os dois gastam, nas bebidas que dividem como querem, €6,5. Mas se eu estiver só e uma outra mulher estiver só também, qual é a razão de bom senso que me obriga a consumir mais, a gastar mais?
Ao falar em machismo talvez me tenha enganado; se calhar, queria dizer educação. Fica bonito ele pagar as contas dela mas a inversa já é muito feia, é muito mal educada.
O dar a passagem a uma mulher, é boa educação, o abrir a porta do carro, também...
Aliás, e por falar em educação, temos de concordar que o papel não é do melhor neste aspecto («mulheres» em vez de «senhoras»).
Mas, enfim, todos sabemos que as mulheres não foram educadas para serem educadas.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Uma semi-gaja nua e outras gajas semi-nuas




Pronto!
Perante o que se ouve e vê por aí, não resisti.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Aposta

Em conversa com um amigo, falei-lhe deste blog. Logo se pôs a querer saber qual era o blog mas, porque não chegava lá, teimou que iria saber.
Apostamos um jantar; ele paga se não acertar, eu pago se ele acertar.
O prazo da aposta é o ultimo dia deste mês de Fevereiro.
Já lhe dei uma série de pistas e ele vai sempre ao blogsearch mas ainda não descobriu.
Combinamos que ele me mandaria um e-mail quando acertasse.
Vou esperar.
É claro que posso esperar sentado mas eu sou paciente.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sobre o poder

Acabei de ler as memórias de Adriano Moreira. Naturalmente, veio-me à memória o O Novíssimo Príncipe (Intervenção, 1977).É daqueles livros que gosto sempre de ler em qualquer altura e não tenho que o ler todo para dele tirar prazer.
Tem frases belíssimas, simples na sua forma mas cheias de conteúdo.
O livro trata sobre o poder e, concretamente, sobre quem tomou conta do poder depois do 25 de Abril. Mas não só: o capítulo II tem por tema o «primado dos valores» e é sempre recomendável a sua leitura.
Do livro retiro algumas frases:
«A nossa época tem visto morrer homens aos milhões desde 1939, numa avalanche de violências sem precedentes: por serem russos, por serem húngaros, por serem checoslovacos, por serem irlandeses, por serem pretos, por serem brancos, por serem ibos, por serem judeus, por serem árabes. Não consta que habitualmente morram por serem proletários ou por serem capitalistas» (pp. 54-55).
O MFA nunca teve intenções de entregar o poder a terceiros. «O contrário é que seria novidade, porque não é da natureza das coisas que o poder seja tirado a uns para dar a outros, como nas histórias do bom ladrão» (p. 76).
Para acabar, uma das melhores:
«Nunca é demais lembrar que o Poder se reduz a essa coisa rude e sem subtilezas que é a capacidade de obrigar os outros a cumprir» (p. 105).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Puzzles

Há uns anos, fui para uma terra que não conhecia e onde não conhecia ninguém. Para me entreter depois do trabalho, comprei um puzzle de 1000 peças.
Quase que fiquei viciado; fui comprando um, a seguir outro, etc..
Ultimamente, tenho estado fascinado com os desenhos de Jan van Haasteren, desenhos que ele faz propositadamente para puzzle.
Comecei por um de 5000 sobre a Europa.
Depois, fui comprando outros.
Este:
Não satisfeito, fiz mais outro:
Em todos eles existem elementos comuns: a barbatana de tubarão, o índio ou algo que faça pensar em índios (uma seta, por exemplo), mãos que aparecem desgarradas e fora de contexto e muitas mais coisas.
Costuma aparecer o São Nicolau, como neste puzzle:
Ele está quase a meio (da esquerda para a direita) na fila inferior.
Tenho outros puzzles, claro, e nem todos consegui fazer. Recordo-me especialmente de um dos Beatles (de que sou fanático) que é em photomosaic, isto é, cada peça é composta por várias pequeníssimas fotografias do tema, conforme ideia de Robert Silvers.
Um tenha que tenha paciência, volto a ele.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Tolkien e Trespass


Conheci o album dos Genesis Trespass em 74 ou 75. Ainda hoje gosto dele, do seu ar épico, pomposo.
O desenho da capa, de Paul Whitehead, era simplesmente espetacular.
Vários anos depois, comecei a ler o Senhor dos Anéis, de Tolkien.
Não conhecia nada do autor nem do género que ele escrevia. Nem sei como é que o livro me veio parar às mãos.
Comecei por não perceber nada pois estava sempre a tentar localizar a história em qualquer sítio e tempo conhecidos.
É claro que tive que desistir.
Mas adiante.
A certa altura chego a Rivendell, onde iria ter lugar o Conselho de Elrond. Ao ver as descrições dos elfos, das suas casas, das suas roupas, veio-me logo à memória, a capa do Trespass.
Imediatamente!
Aquele casal de príncipes (?), aquela paisagem a perder de vista, a fazer lembrar a etapa inicial da viagem de Frodo, a arquitectura do palácio, de que apenas vemos, pelo lado interior, as janelas, etc..

No que procurei sobre o artista que desenhou a capa, não encontrei um mínimo de indício de que ele teria em mente os livros de Tolkien quando a desenhou.
Mas o certo é que não deixa de ser curioso o modo tão imediato como eu estabeleci a ligação entre estas duas coisas.
Tenho a discografia quase toda dos Genesis (até ao The Trick of the Tail (1976) mas este album, com a sua capa, continua perto de mim.
E o Senhor dos Anéis também, claro.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Nota do Tradutor



As Notas do Tradutor são sempre úteis.

Em determinados termos, deixam o texto incólume (palavras ou expressões cujo significado preciso é na sua língua original que se capta), noutros deixam a impressão da solenidade do termo (organismos estaduais) e noutros... não são tão úteis nem esclarecem nada do texto traduzido.

Li recentemente um livro já antigo (o original é de 1987) de ficção (o resumo pode ser aqui consultado mas não aconselho; vale mais ler o livro) que trata de uma aventura em volta da não ocorrência da morte de Hitler, no bunker (esta também é daquelas palavras que não são traduzidas), de Berlim em Abril de 1945.

O tradutor chama-se Carlos Peres Sebastião e Silva.

Em algumas notas, não traduz só. Dá informações que não são pedidas (por exemplo, p. 25) ou sequer interessantes para se perceber o texto (p. 209).

Mas em duas notas ele vai muito mais além do que se pede a um tradutor.

Na pág. 261, no texto, refere-se que o Papa Pio XII tinha no início da guerra, provas concretas dos campos de morte e da sua função. Trata-se, note-se bem, de um diálogo entre duas personagens de um romance de ficção. Surge a surpreendente N. do T.: «Os campos da morte nazis só foram implementados a partir de 1942, em plena guerra, portanto. Esta afirmação (e as subsequentes) do autor em relação ao Papa é assim totalmente desprovida de sentido».

Não me interessa se este facto é verdadeiro; o que me interessa é que isto não tem nada a ver com a tradução.

Na pág. 645, surge a melhor.

Já não estamos na história, o romance já acabou. Trata-se uma nota do autor sobre o livro que ele escreveu e que acabamos de ler: «É irónico que Estaline, o simpático aliado a que os americanos chamavam Uncle Joe, provavelmente tenha ultrapassado em muito Hitler quanto a número de mortor de que este foi responsável, naquilo a que o grosseiro georgiano chamava “trabalho molhado”». Depois disto, vem a respectiva N. do T.: «Segundo alguns historiadores e dissidentes russos como Alexandre Soljenitsine, o número de mortos às ordens de Estaline poderá oscilar entre um mínimo de 28 milhões e um máximo de quase 50 milhões de pessoas o que faz de José Estaline o maior carniceiro da História».

De novo, não me interessa se isto é ou não verdade; o que me interessa é a tradução.

E o que é que isto tem que ver com a tradução?

Trata-se de um tradutor ou de um comentador?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Obladi




Deixei um comentário na Loja de Esquina a respeito de um EP dos Beatles que foi publicado em Portugal a seguir ao Album Branco.
Lembrava-me perfeitamente da capa mas em nenhum dos livros que tenho sobre aquele grupo tinha o desenho.
Mas há sempre mais um livro sobre os Beatles e foi no Beatles em Portugal, de Luís Pinheiro de Almeida e Teresa Lage, que encontrei a capa (p. 162), bem como a data de publicação (Março de 1969).
Em casa dos meus sogros existe um exemplar deste EP mas eu só vou lá uma vez por ano e, se calhar, em 2009, não poderei ir. Vou esperar por 2010 para trazer o disco.
As músicas são: Ob-la-di Ob-la-da, Julia, While My Guitar Gently Weeps e Back in the USSR.
Esta fotografia (porque a do livro era demasiado pequena) foi tirada daqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Ditadura Romana


Esta foi uma instituição útil e controlada com o fim de obviar situações de emergência e grande perigo. Sendo a regra a colegialidade dos titulares dos cargos, os romanos pensaram que essa não era a melhor opção +ara situações de crise; seria preferível a acção de um homem só.
O Ditador era nomeado por um cônsul e o seu tempo de exercício era de 6 meses.
Depois deste período, era reposta a colegialidade dos cargos (coisa bem diferente da chamada normalidade democrática).
O primeiro ditador, segundo a Wikipedia, foi Titus Larcius Flavus mas existem outras indicações.
Não fazia ideia que a MFL soubesse um pouco de história antiga.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Gralhas





Comprei recentemente o livro O Fim do Mundo Antigo e o Princípio da Idade Média, de Ferdinand Lot (Edições 70, colecção Lugar da História).
Gosto muito deste tema e achei o livro muito interessante e fácil de ler. Uma coisa que eu não sabia consta de pp. 194-105:
«Estes Godos, ditos Greuntungs, são, a partir do século V, apelidados de Oatrogodos, isto é, “Godos ilustres” (austr) e não Godos do Leste, enquanto que aqueles de que falamos atrás serão chamados Visigodos, isto é, “Godos sábios” (e não Godos do Oeste)».
Mas o que eu quero escrever a respeito deste livro é das suas gralhas!
Nunca li um livro com tantas gralhas, às vezes, 2 ou 3 por página.
Dou os seguintes exemplos:
Na página 73, linha (de texto) 32, escreve-se «as» onde se deve ler «às»;
Na página 80, linha (de texto), 16, escreve-se «area» onde se deve ler «área»;
Na página 139, linha (de texto), 12, escreve-se «alcada» onde se deve ler «alçada»;
Na página 195, linha (de texto), 12, escreve-se «raca» onde se deve ler «raça»;
Na página 454, linha (de texto) 45, escreve-se «permanecera» onde se deve ler «permanecerá»;
Na página 454, linha (de texto) 21, escreve-se «françês» onde se deve ler «francês».
Há muito mais gralhas mas estes chegam para enxovalhar o livro, o tradutor e o revisor, além da própria editora, claro.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma caricatura




Gosto desta caricatura do Che.

Não está deificado e mostra bem a cara de morte que ele escondia e que encomendava e entregava para outros. Não sei era esse o propósito do autor mas é assim que eu a entendo.

Embora tenha alguma admiração por ele (afinal era um homem com um ideal, mau que fosse), a verdade é que não lhe tenho qualquer respeito.

Por isso, mostrando esta caricatura o que ele era, acho que ela é boa.

A foto foi tirada daqui, existindo outras ligações.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mais uma vez

Há uns tempos atrás fiquei chocado por uma manifestação de falta de confiança; afinal, eu tinha ficado chocado em vão porque tudo correu bem.
dois dias na folha de couve oficial, torno a ver o mesmo.
Fico contente porque vejo que os amigos não só para as ocasiões; são para todas as ocasiões.
A diferença de nível hierárquico é nenhuma o que ainda mais conforma o meu igualatarismo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Almanaque

O Almanaque foi uma revista mensal (salvo para o fim, como é costume) que se publicou nos finais de 50 e pricípios de 60 do século passado.
Era uma revista de vanguarda, quanto mais não fosse porque era diferente. Diferente na apresentação, diferente no conteúdo e diferente na quantidade e na qualidade dos seus colaboradores (Sebastião Rodrigues, João abel manta, José Cardoso Pires, Alexandre O’Neil, etc.).
O seu director foi J. A. de Figueiredo de Magalhães, com orientação gráfica de Sebastião Rodrigues e fotografia de eduardo Gageiro. Tinha a sua sede na R. da Miseridórdia, n.º 125, 1.º — Não se indica a terra onde fica esta rua mas tudo leva a crer, pelo umbiguismo próprio de quem é, que fica em Lisboa.
Além da publicidade própria da época sob a forma de pequena notícia (por exemplo, um Taunus que vai dos 0 aos 100 em 17 segundos — Novembro de 1960, p. 31), tinha rubricas muito próprias. A fundamental, a meu ver, eram as crónicas do reino de Pacheco onde, a pretexto dis e daquilo, se escalpelizava o país de então; de uma forma elegante, irónica e atenta.
Adiante, colocarei aqui algumas peças tiradas dessa revista mas, para já, não resisto ao seguinte excerto:
«Vasco Pulido Valente
Nasceu em 1941. Frequentou a Faculdade de Direito e está à espera que chegue Outubro para se matricular em Filologia Românica onde espera formar-se.
Uma vez obtida a utilísima licenciatura faz tenções de emigrar para o Brasil.»
(Julho de 1960).